[ao abrir os olhos ainda na cama]

Imagina que doido se no meio de uma crise sanitária mundial
o mundo estivesse literalmente pegando fogo
Imagina se, ao invés de se concentrarem na saúde coletiva,
alguns governos estivessem empenhados no genocídio
Imagina que louco seria perceber que as forças da colonialidade
são tão nefastas que as pessoas comuns começam a verbalizar que
tudo bem a normalidade ser financiada com a morte da humanidade.    

[ao pagar as contas no aplicativo]
 
Imagina tu explicando que a humanidade somos nós, eu, tu,
minha mãe, tua vó, o  verdureiro, a mulher da padaria, o estagiário da   
  [farmácia.
Imagina explicar pra pessoa com quem tu tantas vezes saiu pra beber
e conversar, e ela dizendo: não entendi.
Aí tu pensa, foi sempre assim?
É que são camadas, Natalia,
calma demora mesmo pra gente conhecer as pessoas.

[ao escovar os dentes em frente ao espelho]
 
Imagina que quando estourou a pandemia tu estivesse em outro país
com a tua mãe, numa viagem planejada há um ano
e que tua mãe nunca havia viajado na vida
imagina que estavam felizes e até entender que a coisa era séria
já era tarde demais e tu teve que comprar um voo novo
pra voltar antes porque até o teu hotel fecharia,
imagina chegar no teu país e: tudo normal,
ninguém seguindo as normas da OMS.
 
[ao esquentar a água para o café]
 
Imagina tua prima bolsonarista e burra, burra e mau caráter,
publicando em maio notícias de março, dizendo que a OMS não sabe
se é pra usar máscaras,
imagina ela chamando o Lula de diabo
e postando que vai votar no mito depois do vazamento
da gravação da reunião ministerial.
Que homem!, diz.
Imagina teu pai idoso, física e ideologicamente sequestrado
por essa família verde-amarelo, e laranja!
Imagina que tu tem um tio doente dependente químico
e que tu tem que pagar as contas pra ele porque a família
resolveu romper relações no meio de uma pandemia.
 
[ao sentar para trabalhar à frente do computador]
 
Imagina agora que doideira, se a tua mãe um dia te liga
dizendo que ela sofreu uma tentativa de homicídio,
de um homem que é marido da cunhada dela
e que mora na mesma rua que ela
e imagina que ela te conta que ele tentou atropelar o marido idoso
de setenta anos
e depois tentou invadir a casa com um machado,
quebrando a porta e a janela e dizendo
“eu vou arrancar a tua cabeça e comer”.

Imagina a tua mãe no meio de uma pandemia, tendo que fugir da própria casa
com a roupa do corpo,
imagina uma coisa dessas como se tudo isso fosse matéria
para um livro muito do ruim,
um filme tosco com produção caseira, que não ganhou edital nenhum.
 
[ao pôr as roupas na máquina de lavar e dar mais comida pros gatos]
 
Imagina ter que ler notícias surreais envolvendo o presidente da república
num desafio nazista da ultradireita,
sei lá, uma marcha da ku klux klan,
vamos dizer, um garoto assassinado pela polícia
que ao entrar na casa dele dispara 72 tiros.
Imagina um troço, no país que deu mais errado no mundo,
as coisas começam a esquentar e algumas pessoas,
cansadas de engolir um bonecão laranja e desgrenhado
com boca de cu
liderando o país,
cansadas do assassinato sistemático da mesma pessoa,
que acorda todos os dias e morre em algum momento,
porque tudo é um grande erro da matrix,
imagina se essas pessoas um dia acordam e põem fogo no planeta.
 
[ao lavar a louça depois do almoço]
 
Imagina que maluquice, um dia eu acordo pegando fogo,
primeiro uma azia,
algo indigesto que tu engoliu, mas a magnésia não faz efeito,
talvez tenha sido algo que eu engoli, ou que a vizinha engoliu,
que um desconhecido engoliu há anos
e começamos assim com uma queimação coletiva,
e não há chá de macela que dê conta,
e vamos nos enjoando e tendo que pensar em soluções
que envolvem trepanação ou cirurgias de hérnia umbilical,
pra ver se nos desconectamos desse pesadelo,
 
[ao queimar as mãos segurando uma xícara de chá]
 
mas não, não!
Estamos bem acordados, imaginando a realidade.
 
[ao bater a cama e arrumar os lençóis para deitar à noite]
 
Agora imagina se pudéssemos imaginar outras coisas.
Quando é que vamos ter cabeça e corpo o suficiente para imaginar outras coisas?
Mas o que?
Os dias estão indo rápido demais
e das noites já nem sei
 
[ao abrir os olhos no clarear do dia]
 
Imagina poder aproveitar as manhãs.


Natalia Borges Polesso.
Solilóquios

Uma ideia sobre “Solilóquios

  • 8 de junho de 2020 em 10:35
    Permalink

    Que texto lindo. Que processo. Que terror pessoal e coletivo. Que abrir de olhos tão expressivo. Se o que você escreve é isso, vou querer mais.

    Resposta

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