Dia 26 de março de 2020. Voltei a meditar ontem. Estou acompanhando o desafio de 21 dias do curso da Monja Coen. Com a situação que estamos passando, algumas coisas a curto prazo já estão se alterando. Há muita gente transmitindo suas práticas ao vivo, e agora consegui acompanhar a Sanga de Ribeirão. Monje Kojun introduz a prática do zazen e do kinhin. 

Eu já senti isso que estou sentindo agora. É como se, durante a meditação, eu tivesse um insight, um relâmpago, uma luz rápida em que eu conecto meus impulsos, meu conhecimento, minha experiência e um desejo de alterar o agora.

Eu lembrei que escrevia diários quando era adolescente. Eu gostava de escrever. Poucos anos antes de entrar na faculdade, criei um alfabeto codificado para que, se alguém lesse minha agenda ou diário, não conseguiria entender. Adolescente, né. Minha mãe também escrevia diários em algumas épocas da sua vida. Ainda não tive coragem de ler. Não sei se quero. As palavras são delas, dela para ela mesma. São palavras soltas, desabafos e devaneios que só fazemos sozinhos. Conscientes ou não, mas são registrados num papel. Mas ainda não li os da minha mãe. Eles estão no quarto que fico lá na casa do meu pai. Na escrivaninha, na gaveta da escrivaninha que tem chave mas não está trancada. Algumas vezes peguei um caderno em minhas mãos. Eles me olharam. Não sei se gostaria que alguém lesse meus diários. 

Recentemente, na casa do meu pai, resolvi fazer uma limpa no guarda-roupas. Eu, desde que voltei de São Carlos, tenho uma ansiedade por organização, passei quase que compulsivamente organizar os armários de casa. Depois da minha sala na universidade. Depois todo o algoritmo. E chegou até a casa do meu pai. Tirei cracas de lá. Caixas, lembranças, objetos, papéis, bilhetes, cabelo. Estava tudo lá, quase intacto. Para que? Para quem? 

Nessa ocasião, eu então passei a ler e pegar tudo que estava lá, e separar o que queria guardar (ainda) e o que não queria mais. De dez cadernos e cinco caixas, sobrou uma caixa de sapato. Que sensação boa. E que sensação maravilhosa foi queimar tudo aquilo. Queimei na churrasqueira, por mais de uma hora. Aquela labareda grande, laranja, vibrante, o papel se enrolando, ficando meio verde, depois cinza e depois preto. 

Outra hora falo mais desse momento. 

Mas a questão é: porque eu não consigo escrever? Melhor, porque eu não consigo escrever minha tese. Eu consigo, mas porque não começo? Porque não pego o ritmo? Gosto do assunto, quando leio eu também me sinto bem, gosto, consigo articular um pouco os autores. Preciso de prática. 

Mas é bom perceber que foi uma outra prática que me trouxe até aqui.

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