O dia foi cheio de surpresa boa porque, quando a indignação é coletiva, o grito é mais alto e, portanto, maior a possibilidade do big bang: eu me refiro às mensagens lindas que recebi, logo ao acordar, com o relato de vários amigos sobre o abraço que os atravessou ao concluírem a leitura da “Carta que o Seu Guedes não vai taxar (nem ler)”, que postei ontem mesmo e não saí correndo – quem puder, fica em casa –, no meu perfil do instagram, e maravilhosos e inteligentes e conscientes e críticos e empáticos e trabalhadores como são os meus amigos, eles ainda assinaram a petição defendendo a não tributação do livro.

Em cada profissão, diversos são os retornos que nos chegam. Na literatura, o financeiro ainda recluso, quase invisível, me diga você o artista que tenha sobrevivido comendo sopa de letrinhas? Mas quero falar desse outro reflexo: o aparente imaterial (o chacoalho mental produzido pelo texto) que se converte em ação concreta no mundo (se você não é Bartleby e prefere sim, a inquietação é o mínimo que se traduz num corpo em metamorfose).

E se tantos foram os envoltos junto a um texto acuado, embora sincero, de uma leitora comum, numa rede social onde a proposta prioriza a sequência de imagens (haha, tive que colocar o texto em formato .jpeg, inclusive), imagina o PODER de um LIVRO INTEIRO, a bíblia que o diga.

Precisamos continuar lendo.

——

Carta que o Seu Guedes não vai taxar (nem ler)

Seu Guedes, o senhor tem usado máscara?

Por favor, colabore: use, mas não a ponha diante dos olhos, somos mais de duzentos e dez milhões de brasileiros do lado de cá e, a cada dia, menos, todos sabemos contar nossos mortos, carregamos a estatística torpe como sobrenome antigo.

Meus ouvidos desmaiaram de susto quando o senhor, tão certamente economista, disse que “o livro é um produto da elite”, não porque a afirmação estivesse errada, quantas obras afetivas já deixei de comprar porque o preço não me cabia no bolso? E, olhe, para mim, livro tem tanto valor imaterial que, se pudesse, ouro pagaria só pela oportunidade de levar para a casa o conhecimento e a arte de uma outra pessoa que, antes de mim, refletiu por dias e meses e anos e decidiu compartilhar comigo (uma desconhecida!) as possibilidades de mundo, de lutas e de experiências, entregando-me um ninho de narrativas (às vezes, traduzidas por uma outra pessoa que também quis muito que tudo isso chegasse até mim), as quais mastigo, saboreio e engulo e a elas devo tanto o sustento da sanidade mental há quase três décadas – o senhor tira de letra, Seu Guedes?

Aqui, o feijão e arroz na mesa só chegam porque a moeda de troca é o real; e, para ao menos sentir a vontade de ler, mais que necessário um antes: barriga com fome, saco vazio, não paramos em pé. Então, sabe aquele livro, tanto o que nos alcança os dedos com o cheiro das páginas virgens, como aquele que geralmente nos vem com a teia dos sebos, as folhas-polvos? Ambos nos inundam de tempo (a aposentadoria, coitada, cada dia mais distante) e nos chegam divididos em parcelas de cartão de crédito, às vezes, na altura do limite do cheque especial, ou ainda, os que eticamente contrariados já adquirimos de empresas lacônicas: o lucro atiça moinhos de vento; se não tivermos cuidado, a gente segue voando.

Eu venho de uma família de gente pobre e trabalhadora e existencialmente cidadã, muitos formados na vida, ninguém melhor que ninguém, vou frisar assim, pobre e trabalhadora, porque estamos falando sobre dinheiro e, no final das contas, Seu Guedes, parece que é esse o ponto central: não é se todos temos poder aquisitivo para consumir a cultura inalada do objeto livro – isso não temos, o Brasil é o sétimo país mais desigual do mundo, segundo o último relatório de desenvolvimento humano do Pnud (Programa das Nações Unidas para Desenvolvimento), divulgado no final de 2019, antes mesmo desta pandemia que chegou em epílogo trágico –, mas sim a falácia de que nós (e, como meus avós e pais, ainda me incluo nesse enlace, embora menos pobre do que a pobreza anterior, a classe média desse país escala em cactos), o povo trabalhador e “fora da elite”, nós não teríamos sequer interesse em comprar um livro (para fruição individual, para discussão em clubes de leitura, para presentear um amigo, para deixar em banho-maria na estante enquanto os olhos amadurecem), é estranhíssimo que seu ministério nos veja como mulas-sem-cabeça a correr descontroladas incendiando o quê?

Bücherverbrennung, a atrocidade nazista está longe de ser esquecida e são nos livros, também, onde as memórias se aglomeram sem um pingo de distanciamento social, a História nos conta que as histórias são muitas, inteligente seria tateá-las e não atear fogo em tudo, por isso, repito, não somos mulas, sem cabeça, tampouco. Sobre o folclore, inclusive, também aprendi nos livros, graças a meu pai, quem me deu a primeira coleção aos dois anos de idade. É que painho, apesar de pobre e trabalhador e endividado e trabalhando em outra cidade e voltando a cada quinze dias, foi ele, Seu Guedes, quem me educou a liberdade primária.

Se o senhor visse a frente da minha antiga casa lá num bairro periférico da capital brasileira que, também segundo o Pnud 2013, tem o pior IDHM – Índice de Desenvolvimento Humano Municipal do país (uma das dimensões avaliadas é o “acesso ao conhecimento”, nenhuma surpresa); se o senhor reparasse no muro com azulejos brancos e marrons e no primeiro andar com a varanda enorme que mainha, depois de perder o posto de trabalho, mandou reformar com o recebimento da mísera indenização do Banco de Estado de Alagoas, o Produban (desmantelado e fechado nos anos 90); se o senhor só olhasse a casca de supetão na rua, decerto suporia morando nela uma família estruturada em paredes firmes, e, novamente, o senhor não estaria errado: no espaço dos cômodos daquele lar, embora os móveis raros, a geladeira nas últimas, as paredes com infiltração, a televisão em cores mornas e a caixa de correio cheia de boletos, O QUE NÃO FALTAVA ERA LIVRO.

A coleção das enciclopédias Barsa e Larousse pelas quais estudávamos para as provas da escola; os almanaques da Abril que fizemos coleção de A e a Z; os gibis da Turma da Mônica; os tantos livros infantis que a gente comprava, a maioria, em tempos antes da internet, nos vendedores ambulantes que passavam de porta em porta, ou na banquinha de revista do Seu Petrúcio, ou numa seção minúscula de revistaria no supermercado Hiperbompreço, na Fernandes Lima, porque, na cidade, a única livraria (Sodiler, no antigo Shopping Iguatemi, na época) ficava a aproximadamente uma hora e meia de ônibus e três pessoas pagantes (eu, minha irmã e painho) correspondiam ao somatório de seis passagens de ida e volta, afora o lanchinho para três bocas e os possíveis livros (para nós, já caríssimos) e, no final, sim, a cultura poderia nos custar os olhos da cara, mas, por essência, foi ela a nos devolver a vista em alerta e a culpa foi toda do meu pai: ele me despertou para sempre a dona Quixote, saio eu imitando minhas heroínas preferidas pelo mundo e, de repente, o furacão chegou aqui, Seu Guedes, como assim o senhor defende uma reforma tributária que vai tornar ainda maior essa distância ao abraço do intelecto?

Talvez o senhor nunca tenha precisado recorrer às fotocópias durante a faculdade como a maioria de nós, pois dinheiro para comprar os livros originais nunca tivemos e o acervo da biblioteca era pequeniníssimo para suprir a demanda dos estudantes; talvez o senhor nunca tenha precisado comprar a lista dos livros de colégio em feiras de “segunda mão” ou, talvez o senhor nunca tenha se privado de escrever num determinado livro (o lápis bem fraquinho) porque, depois daquela leitura ou do semestre, você pretende repassá-lo para sua irmã ou prima ou avó que começou a aprender a ler no Educação de Jovens e Adultos; talvez o senhor também não tenha estudado em escola pública com o professor de literatura Damião e não tenha sido estimulado a montar uma “biblioteca da turma”, os livros de alfarrábios, cada um dos quarenta responsável por trazer um exemplar para que pudéssemos todos ficar sempre com um livro em mãos; talvez o senhor nunca tenha participado de grupos de leitura e debate com pessoas igualmente trabalhadoras e “fora da elite”, nas quais um único livro circula, muitas vezes, entre todos os membros; talvez o senhor até suspeite dessas realidades nas quais os livros não são individualmente adquiridos pelos interessados pelo único e exclusivo motivo da falta de poder de compra, mas conclua que as migalhas institucionais estão frutíferas diante do nosso “se vira nos trinta” até aqui; mas, de certeza, uma verdade eu e o senhor sabemos: um povo que não lê corre de um lado a outro em pradarias, a liberdade entre as cercas, o capim a pão e circo.

Se bem, Seu Guedes, que capim-santo não falta nessa quarentena para aliviar o estômago, porque, não que antes nesse governo a gente já não se tenha perguntado enraivecido, mas vou elaborar com todas as letras: se a Constituição Federal nos enumera, como objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, a construção de uma sociedade livre, justa e solidária; a garantia do desenvolvimento nacional; a erradicação da pobreza e da marginalização; a redução das desigualdades sociais e regionais; e a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação; por que sequer ponderar a TAXAÇÃO DE LIVRO que vai de encontro a todas, uma por uma, dessas diretrizes? A não ser que não estejamos mais sob a vigência da carta de 1988. O diabo veste prada.

Seu Guedes, que falta de educação é essa que o senhor tem escrito na história desse país?

📚


Resumindo: o que está acontecendo? Pela reforma tributária proposta pelo atual ministro da Economia, Paulo Guedes, com a taxação dos livros, o preço para o consumidor final adquiri-lo vai necessariamente aumentar, repito: o preço do livro VAI AUMENTAR, distanciando ainda mais o abismo entre o povo e o acesso amplo à educação e cultura.
.
Quer ajudar sem sair de casa? (se puder, já sabe, fica aí mesmo)

  • Assina e compartilha a petição on-line abaixo endereçada ao Congresso e ao Governo Federal pedindo a não tributação de livros.
  • Compartilha a tag #defendaolivro e se sinta convidado você também a escrever sobre sua relação com o livro: já parou pra pensar sobre isso? 🧩🧩🧩
sobre a Carta que o Seu Guedes não vai taxar (nem ler)

Uma ideia sobre “sobre a Carta que o Seu Guedes não vai taxar (nem ler)

  • 15 de agosto de 2020 em 08:15
    Permalink

    Siiim!!

    Tb coloquei a réxitég no meu escrito no diário Os (meus) céus na pandemia, pág 34 no A Borboleta e o calhamaço, não é o cumulus>
    Sim, nossos livros amados, temos q lutar por eles.
    Gracias pela carta, ele pode não ler, mas a gente, a gente sim.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *