Se deixo minha visão ir longe a partir da minha janela (e eu quase sempre deixo), meu olhar passa por cima de um bonito casario antigo e segue em frente, tropeçando no topo de algumas árvores, até parar em um prédio meio alto e muito quadrado que talvez esteja a cem metros de mim. Hoje, para fora de uma das janelas desse prédio, está pendurada uma camiseta branca de manga comprida. Parece um varal improvisado, pois é a única janela que tem roupa secando.

Um vento suave passa pela Cidade Baixa e balança a camiseta. Às vezes ela parece estar pedindo um abraço; às vezes parece estar pedindo socorro. Tenho uma vontade imensa de ir correndo até lá e resgatar a camiseta branca de manga comprida. Salvá-la dos perigos do vento, do sol e das marquinhas que os prendedores deixam no lugar onde eles mordem as roupas. Tento me distrair com as ranhuras da minha estreita mesa de madeira, e não sei o que fazer com essa urgência: quero salvar a camiseta. Quero salvar qualquer coisa.

Quando me confrontam com aquela pergunta que é misto de curiosidade e morbidez, o que você salvaria se a sua casa pegasse fogo?, eu só consigo chegar a respostas vergonhosamente pragmáticas. Salvaria a caixinha de plástico onde guardo meus documentos; salvaria meu notebook porque certamente me faltaria dinheiro pra comprar outro; salvaria o celular para manter contato com as pessoas enquanto minha casa terminasse de queimar; e depois agarraria o que estivesse mais perto, fosse um livro, uma peça de roupa, um óculos de sol.

Não importa muito o que eu salvaria porque, mesmo que fosse a coisa mais banal – digamos um lápis usado – ele ganharia depois disso uma aura única: não seria um lápis usado, seria o lápis usados que salvei do fogo. Por outro lado, já que seria impossível salvar todos os objetos que têm valor sentimental, perder qualquer um deles seria como perder todos. Se salvo do fogo o origami de tsuru que uma amiga me deu de presente anos atrás, vou colocar sobre ele o peso da memória de todos os presentes de amor que não pude salvar e, cada vez que olhar para o tsuru, só vou enxergar nele aquilo que ele não é. Ao salvar o tsuru, perco o tsuru. O que significa, no fundo, que de um incêndio a gente nunca salva nada.

Não sei por que me ocorre a imagem do incêndio. Com frequência tem se comparado a pandemia a uma guerra, mas eu não consigo embarcar na metáfora. Nada é mais arbitrário do que uma guerra, e isso que a gente está sofrendo é resultado de um vírus no seu curso natural de vírus. Que nossa resposta seja uma metáfora bélica talvez só sirva para mostrar o quanto nos acreditamos separados na natureza e, não por acaso, morremos por conta disso.

Tenho uma amiga que segue umas capivaras no Instagram e me mandou a foto de uma capivara chamada Julia (a capivara Julia também não tem acento no nome). Numa foto, Julia está placidamente contemplando um lago. Em outra foto, Julia dá uma focinhada carinhosa em outra capivara, esta chamada Elisa. Gosto de pensar na capivara Julia, seu amor por Elisa, sua vida sobre gramados verdes. Se a grama da capivara Julia pegasse fogo, ela só se preocuparia em salvar a vida. Já o poeta Jean Cocteau, quando lhe fizeram a pergunta do incêndio, respondeu: “se minha casa pegasse fogo, eu salvaria o fogo”.

Daí podemos tirar duas conclusões importantes, ainda que desprovidas de novidade. Em termos de metáforas, os poetas se saem melhor que os governantes. E, em caso de incêndio, é melhor seguir a capivara do que o poeta.

Poderia terminar o texto aqui, depois desse parágrafo aí em cima, que é um parágrafo que significa pouca coisa, mas que tem potencial de ser engraçadinho e deixar o leitor com uma sensação agradável. É isso o que mais faço sobre a minha mesa estreita de madeira em frente à janela: enjambrar origamis de palavras que, por suas estruturinhas e dobraduras, conseguem, às vezes, significar mais do que as palavras soltas significam.

Porém, olho para a camiseta branca de manga comprida e sinto que hoje não quero, não posso, não devo terminar nada com uma sensação agradável. A camiseta está dançando, pedindo socorro ou se rendendo? Mais de cem mil pessoas morreram pelo novo vírus. Dizem que morrer por falta de ar dói mais do que a maioria dos outros jeitos de morrer. Não gosto de pensar nisso, mas penso. Penso nisso porque não sei salvar ninguém.

Também não gosto de pensar nos religiosos que foram para a frente de um hospital assediar uma criança de dez anos que precisava de um aborto, mas é necessário pensá-los. É necessário pensar contra eles. Dizem-se cristãos, protetores da vida. Chamaram de assassino o médico que salvou a criança. Eles preferiam destruir a criança, pois são tementes a Deus. Na suas crenças, as pessoas más, depois da morte, vão queimar no fogo perpétuo do inferno. Eu não sou religiosa, então não sei, mas torço para que eles descubram.

De minha parte, não sou temente nem devota de Deus. Também para isso sou pragmática. Ele até pode existir, mas não está aqui. Só vejo a possibilidade de acreditar em Deus se acreditarmos que ele não está aqui, porque caso estivesse, jamais poderíamos perdoá-lo.

Salvar alguma coisa
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