Tenho pensando que uma casa é um sonho. Um desejo de futuro. Estou dentro de minha casa. Vivemos eu e ela. Ou eu sou ela? Eu não sei exatamente. Sei que alguns espaços de minha casa serão textos. Um poema que ainda não escrevi. Uma crônica que enviarei na próxima semana. Na minha casa não cabem contos, novelas e romances. Essas narrativas maiores estou deixando arquivadas no computador. Ele não está aqui. Ele quebrou. Há alguns dias espero no sofá a ligação que me dirá: pode vir. Nesse dia ele estará pronto. Eu irei ao encontro dele. Lhe tomarei nos braços. Acolherei seu vestido, seu véu. E a narrativa voltará para minha casa. Meu computador está na assistência técnica. Eu estou em casa e não acredito em divisões exatas. Eu penso que gêneros são caixas de rearrumar desejos. E eu exponho meus desejos a reordens. E tudo bem. E não me incomodo. Tenho outros incômodos. Agora tenho uma samambaia crescendo na cozinha que me lembra minha tataravó Josefa. Eu não conheci essa mulher. Mas quero essa conversa com ela em minha cozinha. Essa samambaia que cresce na minha cozinha é presente, passado e futuro. Eu quero escrever uma crônica sobre a pandemia e Josefa. A mulher e suas raízes. Vivas. Ramificações. Riscos de memórias que ascendem ideias.

Na sala esse penduro azul na parede sem planta é meu poema de amanhã. É a alegria que eu guardo para o futuro. Eu comecei a escrever um poema sobre esse vaso de planta azul na parede e parei porque ele dizia dessa felicidade de sonho. Eu não quero isso não. Ignorante. Quero rir de mim. Fui tão boba ao parar de escrever um poema porque ele supunha felicidade futura. Nessa situação de isolamento por conta da pandemia ter sonhos é sublime. Então voltarei ao poema. Mas preciso dizer que isso de casa e desejos e futuro é um tema recorrente no que escrevo. Lembro desse poema de Margô Paraíso. “A mais Sublime”. Margô Paraíso é uma escritora que inventei e com quem conversei por anos. Esse poema dela que cito está no livro “Ezequiel” (2018). Então inventar nomes, mulheres, conversas e desejos de felicidade com casas não é um exercício de pandemia. Não é, apenas. Mesmo que agora seja também. Fico um pouco confusa sobre a revisão desse texto e sem oportunidade de voltar a leitura de modo mais horizontal pois estou sem computador escrevendo no celular. Eu gosto de escrever no computador. Eu tenho uma máquina de datilografia e escrevo muito com ela. Eu sou mesmo esse desvio. Esses tempos. Essas mulheres em conjugação. Eu sou uma costura. Eu posso ser essa camisa de meu avô que guarda meu lugar na mesa. Quem escreve na casa? Nessa casa alguém escreve? Parece que para algumas mulheres escrever ainda é uma luta por propriedade. Estou no sofá. Olho a mesa. A parede. A planta futura. Meu presente é esse enredo com elas.

Tudo isso aqui pode ser a pandemia e esse isolamento, essa falta tão absurda de diálogo instantâneo. Você diz, eu ouço. Ando carente de ouvir voz de gente em qualquer conversa comigo. Quero te ouvir mulher. Fala. Não sei se disse, mas vivo sozinha. Essas mulheres de minha vida e de minha família viveram sozinhas. Josefa, Margô, essas foram mulheres sozinhas. Ambas faleceram jovens. Deixaram seus desejos. Um desejo das mulheres de minha família é ter casa. Minha mãe me disse um dia: o que eu sempre quis mesmo foi ter uma casa. Eu não tenho uma casa própria nesse sentido. E quero ter. Esse é um futuro. Mas agora, nesse dia e dias que vão amanhecendo e amanhecendo sem trégua, sem sono, eu tenho uma casa. Eu estou realizando em mim: uma casa. Costurando nesse espaço que me movimento, linhas de saúde, e isso é uma casa. Isso agora é minha casa: linhas de saúde. Repetições. Esse texto. Esse exercício elaborado em tecnologia vertical. Uma precipitação é um quase. É aquela gota que diz: sim. Sim, choverá. Sim eu estou vivendo em mim. E essa afirmação é como uma onda, linha em onda: abismos domésticos. Casas que se conectam. Eu aqui e você e a onda que podemos movimentar juntas. Porque a precipitação de um abismo doméstico pode ser queda. E tudo bem.

Luciany Aparecida

precipitações ou abismos domésticos

6 ideias sobre “precipitações ou abismos domésticos

  • 30 de maio de 2020 em 20:20
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    Que belo texto, me fez refletir sobre o atual momento em que vivemos. Obrigado.

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    • 7 de junho de 2020 em 19:27
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      André, Obrigada pela leitura e comentário. ❤️ Entre um texto e outro, uma música e outra, uma conversa e outra vamos vencendo esse tempo. Abraço.

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  • 31 de maio de 2020 em 12:27
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    Que lindos, esses horizontes verticais.

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    • 7 de junho de 2020 em 19:30
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      Lara, eu viajei nisso dos horizontes verticais… fiz da falta (do not) uma possibilidade para pensar outras coisas e fui buscando um caminho… 😍❤️😘

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  • 31 de maio de 2020 em 14:30
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    Que prazer entrar na sua casa-texto, Luciany! Um respirar na sua mesa em pausa. O texto, belo, deixou entrar companhias de vários tempos e nos alerta desse tempo sem tempo. Beleza de escrita.

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    • 7 de junho de 2020 em 19:32
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      Milena, obrigada <3 quanta saudade! Que surpresa e alegria ler seu comentário aqui. Saudade, saudade. Beijo!!!

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