Lembro do Mauri me dizendo que, misericórdia, eu estou virando uma múmia na quarentena, e a risada incontida faz doer ainda mais as escápulas, ambas inteiramente enfaixadas; entre mim e salonpas, uma relação de amor à menta.

A dor não dá trégua há oito horas e, além dos adesivos, tomei um paracetamol e apelei ao restinho da solução de “medicina do amor”, que comprei da irmã de Marina e tem durado cinco sofrências desde ali. uma delícia a mistura de copaíba, manjericão, cera de abelha, gergelim, dá vontade de comer, dá, mas, em vez disso, eu o derreto lambuzado no corpo para desamarrar os pontos de tensão; há quem não se abra a esse cheirinho?

Não dão trégua também as “vidas perdidas”, por covid, por racismo, por ausência de acolhimento institucional, que, tão cansadas e impotentes, as angústias, por conta, esgueiram-se para longe dos olhos e são distribuídas da cervical ao sacro num desdobrar-se de agulhas ao longo de toda a dorsal e lombar que sublinham o S da escoliose, o S de “Sara Sofredora”, um amigo brincou comigo certa vez, dando-me uma tapinha onde? nas costas.

A ironia é apenas mais um dos sentimentos desse “mundo mundo vasto mundo”, se bem que Drummond já nos adiantou, gauche na vida, que o artista carrega mais que isso: duas mãos e O próprio sentimento do mundo; e então me lembro de Atlas, o titã condenado a sustentar nos ombros a abóbada celeste por toda a eternidade. Seremos nós, os que se deixam atravessar por todo esse caos, punidos a desempenhar estátuas de Rodin, nunca mais não pensantes, nunca mais desprovidos de sensibilidade porque fomos eternamente empalados no método cartesiano e, por isso mesmo, nunca mais sem as dores nas vértebras que nos impulsionam os ombros para frente, a força criativa escorrendo até os dedos com os quais escrevemos poesia? Ser humano é de uma responsabilidade intransferível.

Mas, por hoje, dormir.

Daqui a pouco, é quinta, e depois sexta, e depois sábado e, se eu me chamasse Nonato, seria uma rima, não uma solução.

2019, em Cambará do Sul, pulando abismos.

para sempre, roldanas
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