Na galeria do meu celular, agora há fileiras inteiras de fotos de videochamadas, alternadas com variações do pôr do sol na janela do escritório. Também tenho um monte de foto de comidas – comidas elaboradas, criativas, preguiçosas, gosmentas, saudáveis, sofisticadas… de um comer que mudou radicalmente nos dois últimos meses.

Nesse mix de quadradinhos de rostos no Zoom, no Jitsi, pastel, vagem e pôr do sol, no rolo da câmera agora há também várias fotos minhas escovando os dentes. Eu mostrando a escova com pasta como um convite irresistível, eu com a boca aberta cheia de espuma exibindo minhas obturações dos anos 90, prateadas, de amálgama. Eu com cara de acordar segurando a escova com preguiça. Fotos que foram feitas para mandar ao meu irmão. Logo no começo da pandemia, comentamos ao telefone das pequenas coisas bestas que mudaram para nós, imediatamente: o fato de que não podemos mais ver alguém passar a mão na cara em um filme do passado que já nos encolhemos no sofá, “”Ai meu Deus, a criança vai assoprar a velinha do bolo”.

Outro acontecimento minúsculo em comum foi que estávamos escovando os dentes menos vezes, menos regularmente, porque não íamos encontrar alguém, porque não tínhamos mais rotina de almoço. Meu irmão falou que queria lembrar mais disso, e daí várias vezes em que eu vou escovar os dentes eu lembro dele e mando a foto, como um lembrete. A primeira vez achei engraçado fazer isso, mas depois comecei a sentir um carinho por essas fotos sem explicação, essa espécie de piada interna, que na verdade é um desejo de que ele se cuide, que a gente possa se cuidar, junto, ao nos lembrarmos mutuamente dos pequenos gestos necessários para sustentar a mente aberta, a espinha ereta, o coração tranquilo… Ao menos os dentes sem cárie.

Apoios para lembrar, para sustentar, para persistir – no importante e no desimportante, no necessário, no desejado, no pequeno e no grande. Se eu escovo meu dente e por isso você escova o dente, minha escovação vale um pouco por nós?

Nos últimos anos, lembrei muitas vezes de um poema do Brecht. Lembrei por conta desse Brasil doloroso até o talo, e na catástrofe ambiental geral, agora com o plus da pandemia. Um poema que começa assim: aquele que amo disse-me que precisa de mim. O poema precisa ser visto na página, mas, vá lá: “Aquele que amo / Disse-me / Que precisa de mim. / Por isso / Cuido de mim / Olho meu caminho / E receio ser morta / Por uma só gota de chuva.”‘

“Para ler de manhã e à noite” é o título.

Talvez o poema tenha vindo à mente agora por conta desse título mesmo, em que leio que cuidar de si e do outro, cuidar de si para cuidar do outro, precisa de lembrança constante, mais que diária: de manhã e de noite. Cuidar de si radicalmente, ainda, de olhar o caminho e temer a morte e uma só gota de chuva. Há urgência em não descuidar, não titubear, não hesitar. Não esquecer.

Talvez seja preciso lembrar também que o outro, que amo, disse que precisa de mim? Agora já estrago o poema, ademais muito já estragado – porque, não é mesmo, veja só o apelo enorme desse poema lindo, sentimental.

Não resisto a estranhar: Se algo é urgente, como pode ser esquecido?

Mas essa última é pergunta minha, que enfio nos poemas, anoto nos post-its na parede. Perguntas que, entre os dentes, seguram a primavera. Repetidas em diferentes palavras, em diferentes fotografias estranhas mandadas para gente mesma, para depois encontrar de novo, de manhã e de noite.

Para lembrar de manhã e à noite
Tags:             

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *