Faz uns dias que tenho exercitado acordar cerca de 1 hora e meia antes do que acordaria para então relembrar o propósito de ter clareza no sonho ou, melhor ainda, despertar dentro do sonho, reconhecendo que é um sonho e aí poder fazer o que eu quiser. Nenhum sucesso quanto a isso, mas tenho, sim, tido sonhos vívidos, alguns com significados aparentemente bem interessantes.Noite passada por exemplo, sonhei que um mestre budista estava na casa da minha infância em Caxias – e que povoa meus sonhos há décadas. Ele estava determinado a deixar essa vida porque sentiu que sua missão já tinha chegado ao fim. Então se deitou na varanda da casa e ateou fogo ao corpo. Pessoas à sua volta rezavam e meditavam. Mas de repente, ele pareceu mudar de ideia. Levantou-se, o fogo se apagou e ele não apresentava nenhuma marca de queimadura. Fiquei impressionado com sua realização.Já esta noite tive sonhos com teatro, que eu dirigia um peça feita por mulheres de um grupo de catadoras ou recicladoras, num galpão numa rua escura de Porto Alegre. Nenhuma lucidez e nem morte, mas havia um certo clima de medo, especialmente para chegar nesse lugar.Medo e morte andam junto, porque não sabemos quase nada sobre a segunda.Os ensinamentos budistas dizem que morrer é muito semelhante a dormir e que renascer é muito semelhante a sonhar. Se nos habilitamos com esses processos que ocorrem diariamente, talvez estejamos mais aptos a atravessar o processo da morte física quando ela chegar.Mas hoje eu só fiz morrer – com zero consciência – na rede, aquela 1 hora e meia, e só consegui obter dores de desconforto pela posição. Meditei, tomei café, joguei, desenhei. Nada novo.Mas aí também escutei uma amiga, com quem tenho um combinado de escuta com base na Comunicação Não-Violenta semanalmente, e o medo de morrer para uma vida de conforto pareceu ser um pano de fundo – o assunto levantado me levou a isso. E se eu não tiver mais de onde tirar meu sustento após essa pandemia? E o que é o trabalho remunerado, qual o sentido dele? Eu sigo recebendo “sem trabalhar” – ao menos não oficialmente – pois sou concursado, mas tenho certa vergonha de assumir isso, pois sei dos milhares de demitidos pelo vírus.Tenho vergonha e medo de morrer.Morrer para o conforto, para a liberdade, para o prazer.E se eu não sentir mais nada amanhã?

Chego no fim do dia lendo o livro Apaixonado pelo Mundo, do mestre budista Yongey Mingyur Rinpoche, em que ele descreve um retiro de rua que escolheu fazer – vivendo nas ruas por 2 anos – e chego bem no ponto em que ele descreve todo o processo literal de morte pelo que passou, com a dissolução completa dos elementos terra, água, fogo e ar em seu corpo.Termino o dia igualmente impressionado com a realização desse mestre – como foi com o mestre do sonho – e também renovando a aspiração de que possa ver e realizar desse modo.

A hora da morte realmente é incerta. Mas a pandemia veio para escancarar que não podemos mais nos dar ao luxo de simplesmente confiar que o futuro sempre estará aí.

Então sigo para “morrer” daqui a pouco.

E sonhar.

E despertar?

O sonho da morte
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