O homem sentado no banco do parque é jovem, deve ser bonito, mas está encurvado e acinzentado pela pobreza. Conforme vou me aproximando percebo que ele está encurvado porque escreve algo. Tem nas mãos um lápis sujo e um papel imaginário sobre o banco. Ele escreve. Logo adiante há outro. Está deitado próximo ao estacionamento, em um papelão no chão. De longe a cena me parece a de um homem deitado com uma espécie de estátua de santa na mão. Quando chego mais perto e apuro o olhar, vejo que é uma folha de jornal. Ele lê. Próximo à rótula do Papa, um local sagrado na Medianeira onde um papa rezou uma missa lá pelos anos 80, outra cena me chama a atenção: há uma casa no canteiro central da rua feita com pedaços de compensado, folhas de papelão, lonas, paus e pedras. Em frente, uma mesa de plástico e duas cadeiras. Sobre a mesa, impecavelmente arrumada, um guardanapo de crochê e um vaso. Não sei se me alegro ou me entristeço com a humanidade dessas cenas. Aliás, nesses dias quase todas as coisas me dão esse sentimento entre a tristeza e a alegria. Os muitos dias de clausura e silêncio começam a fazer efeito. A mídia bombardeia notícias, as redes sociais, os grupos de whatsapp, as conversas e até os nossos sonhos vão sendo invadidos por imagens da pandemia. E agora começaram os mortos, as covas, os contêineres, o governo e os políticos fazendo corpo mole para repassar míseros trocados pros trabalhadores e suas famílias, os golpes dos ‘brasileiros de bem’ se proliferando por todos os lados, os banqueiros e os ricos ainda mais ricos. A sociedade adoece. Do outro lado, pessoas ponderam, divulgam ações humanitárias, pequenos e grandes gestos, enchem suas redes com atitudes positivas e fotos onde aparecem fazendo o bem ao próximo, pedem calma e meditação. Afirmam que o mundo não será o mesmo e alguns se arriscam a dizer que o ser humano sairá fortalecido disso tudo.

Sozinha na casa penso que não há lado bom em uma epidemia, onde muitos vão morrer, muitos vão sofrer, muitos vão empobrecer, outros começarão tudo de novo e de novo e de novo, reconstruindo suas vidas como um quebra-cabeças sem fim. Aceito a tristeza, só por hoje. Sozinha na casa eu falo e minha voz atravessa a sala, atravessa as paredes desse prédio antigo e chega lá do outro lado, mas ninguém está lá. Ouvidos não me ouvem. Olhos não me veem. Refaço o caminho. Volto. Quebro mais uma vez todos os muros que já quebrei e eles voltam a se por de pé como heras em paredes velhas.

o guardanapo de crochê

Uma ideia sobre “o guardanapo de crochê

  • 9 de junho de 2020 em 20:04
    Permalink

    Lindo, lindo. Toca na alma.

    Resposta

Deixe uma resposta para Gil Baumgarten Franco Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *