Hoje troquei os móveis de lugar pela terceira vez desde que começou a quarentena. Me pergunto se é um modo de trazer a variedade – as diferenças e as novidades – da rua para dentro de casa. Ou se é apenas um novo modo de procrastinar: eu deveria estar trabalhando, mas com certeza se eu colocar essa mesa aqui, com esse ângulo para a janela e ao lados das plantas, vou trabalhar muito melhor quando eu de fato sentar para trabalhar.
Hoje foi um dia cinza, e talvez a primeira vez na vida que um dia cinza me deixou contente: é mais fácil ficar em casa num dia cinza. Faz cinquenta dias que estou, na maior parte do tempo, em casa. Gosto da minha casa. Gosto de cozinhar. Gosto de cuidar das plantas. Gosto de estar sozinha. Em resumo: não posso reclamar, mas, ainda assim, reclamo. Porque sinto muita falta dos amigos. Porque sinto falta da família. Porque sinto falta da rua.
Flanar: que verbo antigo. Em fevereiro, eu escrevi a seguinte frase num dos capítulos da minha tese: é impossível flanar num estado de polícia. Estamos no início de maio e agora: é impossível flanar. Nas breves caminhadas que dou quando minha cachorra está comigo (agora ela está com o meu ex, com quem compartilho a guarda canina, agora em trocas de guarda repletas de distâncias e cuidados e paranoia), não consigo me distrair nem por um segundo. É preciso escolher as calçadas largas, é preciso desviar de grupos de pessoas, é preciso cruzar a rua para evitar a aglomeração em frente à lanchonete. Se existe alguma possibilidade de flanar, é exclusiva da cachorra.
Preciso voltar ao trabalho. Gosto do meu trabalho. Não posso reclamar, mas, ainda assim, reclamo. Porque o trabalho é interrompido por um festival de notícias que me angustiam e me revoltam. O Deus Economia exige seus sacrifícios, é preciso servir-lhe carne humana. Os muito ricos se salvam em aviões, e os pobres são empilhados em valas comuns. A gente sabe. Isso sempre esteve aí. O vírus apenas escancara o real. Uma vala comum é o real.
Mas eu preciso voltar ao trabalho.

Não posso reclamar, mas reclamo
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Uma ideia sobre “Não posso reclamar, mas reclamo

  • 22 de maio de 2020 em 10:11
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    Que saudades de flanar nas ruas, no carro, enquanto escolho a marca do macarrão no mercado…

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