Não paro de pensar que 2020 é um ano regido por Xangô, o orixá da justiça, com influência de Iansã, a rainha das tempestades e dos raios, e também de Oxóssi, o senhor da caça, da fartura, e como essa combinação explica o redemoinho em dia quente que estamos atravessando dentro da nossa cabeça. Não paro de pensar na cobrança que de repente surgiu para que a gente escreva sobre a nossa quarentena, para que a gente descubra algum sentido, para que alguém explique o que ninguém está conseguindo nos explicar, quando a única explicação possível está em algum lugar depois do espelho, por mais absurdas que as imagens sejam. Não paro de pensar que, em plena pandemia mundial, ainda existam tantas pessoas por aí acreditando em falsos profetas e falsos messias, se a gente sabe muito bem que os verdadeiros reis não precisam de coroa para que os outros reconheçam sua majestade.

Não paro de pensar que não paro de pensar porque não quero pensar no que eu mais preciso pensar, que é aquela coisa que eu sequer consigo expressar neste texto. E aí me vejo andando de bicicleta em direção ao Gasômetro lá no início de outubro para aproveitar que está um dia morno de céu claro e azul e cá estou deitado no gramado em cima de uma toalha de microfibra pronto para ler um romance sobre as cidadãs de segunda classe quando minha amiga de sardas aparece e andando e conversando chegamos naquela pizzaria que só serve um número limitado de fatias e então o namorado dela aparece e ligamos para nossa amiga professora perguntando por que motivos ela não está ali com a gente já que a faculdade, convenhamos, não paga tão bem assim para ela se esfolar de trabalho, e aí Ela me liga e me pergunta quando é que vou voltar para casa e logo estou em um ônibus para virar a noite na estrada e entrar no nosso quarto bem cedo só para poder deitar devagarinho e me abraçar com Ela – sendo que, na verdade, de volta para junho de 2020, me abraçar com Ela no sofá aqui em Curitiba é o que ainda me faz acreditar que este outubro futuro um dia será possível, mesmo que a grande pergunta sobre a aparência do amanhã seja absolutamente irrespondível.

Claro, muitos já estão nos dizendo que nada será como antes, mas esta é uma grande mentira porque as coisas não mudam assim tão fácil no mundo e continuamos assistindo a uma série de atrocidades e pequenas barbáries que ignoram o quanto estamos gritando na internet, o que só me faz pensar que precisamos aprender a ser forasteiros de nós mesmos se quisermos sair do fundo deste esgoto onipresente, com toda a sujeira que parece se espalhar pelo corpo inteiro, engolindo todos os órgãos e tecidos e não deixando sobreviver nem mesmo uma célula de otimismo. De fato, não paro de pensar na sujeira e de como precisamos de uma tempestade – o que me acalma é saber que essa chuva não deve demorar para chegar.

nada será como antes
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3 ideias sobre “nada será como antes

  • 7 de junho de 2020 em 14:55
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    Muito bom o texto. Apesar do realismo, nos dá esperança que outubro vai chegar e nós juntos com ele

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  • 17 de junho de 2020 em 20:12
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    Eu quero mesmo é que chegue outubro de 2022!

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    • 17 de junho de 2020 em 21:38
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      Deus, Jah, Alá e todos os orixás permitam que a gente chegue lá para podermos aproveitar a Festa da Democracia.

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