Dia 12 de maio, Lua Cheia.

Querido diário, hoje é a primeira vez que paro meu tempo para escrever com você. Será que nos daremos bem? Para firmar nossa amizade tão recente, compartilharei com você meus sonhos. Não os sonhos de fantasias e visões comigo viajando pelos campos de Toscana em um carro antigo com meu grande amor, não somos assim tão próximos (ainda?), mas os sonhos que a gente tem durante a noite e não entende nadinha de nada. Sabe quais?

É muito comum eu entender e ter consciência de que estou em um sonho, de que aquilo é outra realidade. Eu pelo menos gosto de pensar assim (outra realidade). E o isolamento social tem me presenteado vivências singulares.

Nessa noite, por exemplo, por um espelhinho pequeno e desgastado a leoa-mulher me olhava, de costas para mim. Ela era grande, prateada, com manchas cinza-escuro nas patas. Seu corpo de leoa tinha rabo e seu rosto, feições femininas e humanas. Ela me olhava através do espelho na mão com curiosidade animalesca e parecia perguntar ‘quem é você’, ‘o que faz aqui?’. Olhei adiante (estava em sua caverna de argila nova e brilhante) e vi lá no fundo, lá no meio, o homem cru e desmoldado. Ele estava encolhido… na posição de folhinha dobrada, uma casca oca. Eu fiquei observando-o na clareira de argila, sendo protegido pela leoa-mulher. Ela é sua guardiã. Curioso e curioso.

Olhei para aquele rosto astuto da guardiã mais uma vez, pelo reflexo do espelho, e me dei conta… ‘estou dormindo’. Fui então embora da caverna dela.

Acordei com uma tempestade que chegou na madrugada e minha gata branca dormindo aos meus pés. Virei para o lado, acordei meu marido e contei a ele o sonho todinho. Compartilhei com ele a minha conclusão: “Então é isso, sonhei com o imposto de renda!”.

Interpretações cotidianas à parte, meu amigo diário, eu mantenho as portas da noite abertas para os outros mundos e continuo sem entender nadinha de nada.

Dáfini Lisboa

Metáforas

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