A juíza leiga tinha certamente uns quinze anos a menos do que eu e falava com sotaque carregado do interior, sentada numa cadeira de espaldar alto, de forro marrom. A minha advogada e eu, as senhoras da sala virtual, espantávamos a surpresa da novidade com boa disposição e casacos esportivos. Tudo durou maravilhosos quinze minutos, coisa que, o suntuoso prédio do Foro Cível teria nos tomado umas boas três horas entre trânsito e espera sob sapatos de salto.
A jovem fez as perguntas, redigiu o termo, compartilhou o texto final, publicou no processo judicial eletrônico, marcou a tele-audiência de instrução e se despediu alegre. Enquanto isso, o homem, também jovem como ela e preposto da parte ré, fez sua única fala no início e se calou durante todo o tempo. Ficou com o olhar abaixo do ângulo da câmera, lendo ou mirando algo. Ele não estava ali. Foi a primeira vez que vi a mesma atitude de alheamento de adolescentes numa situação adulta e profissional.
O olhar abaixo do ângulo da câmera. Foi assim que eu – mais uma vez- percebi que este tempo não é mais o meu tempo. Que seja! O olhar abaixo do ângulo da câmera ignora meu desajuste , como o sorriso ágil que fez o share screen. Como minha juventude ignorava também.

Ignorâncias

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