botei pra despertar às 05:05h, mas tocou às 05:25h. abri os olhos e fui ver o sol em pleno exercício nascente. eu sei lá o que eu queria ver além do sol, mas tinha algo com uma sensação de antiguidade, tinha um tom acobreado também. tive mesmo a impressão de que veria um horizonte inusitado antes de olhar para a janela. um graal boiando no meio do céu talvez. r e l u z e n t e. aconselhei-me sabiamente a não dar vazão àquela imagem interna e brilhante, ver apenas o que está visível era trabalho suficiente e o sol era luminoso que bastasse, mas vesti o casaco ocre pra chamar os tons de cobre: – vai que. nunca se sabe. tudo pode acontecer, inclusive nada.

do sonho de que eu vinha ainda reverberavam imagens de um tipo de encontro que agora é proibido. gente tem sido nociva em grandes quantidades. sempre foi, eu acho. mas ajuntamento de pessoas por esses dias não! – com essa foram pro saco um monte de coisas magníficas e outras que já vão tarde. no meu sonho as coisas que já vão tarde foram drogas em excesso quântico, papos horripilantes e uma bad vibe tão tremenda que eu saí no relento do tecido onírico a encontrar com demônios, por que preferia isso a ficar naquela festa.

pus água pra aquecer e sentei no banquinho ao lado do fogão (o confessionário do pão). fui misturando as memórias do sonho; os ruídos da chaleira; o sol nascendo; as ancestralidades acobreadas; o pão pita se inflando dois dias atrás naquele mesmo fogão; a mulher num sei de onde que propagou seu pensamento ignóbil nas mídias sociais, dizendo que as pessoas que são favoráveis ao isolamento deveriam ter suas portas pintadas de vermelho, pra identificação e restrição de qualquer coisa que ela achasse importante retirar delas… tudo isso em questão de segundos. escolhi um vermelho brilhante, tinta esmalte, uns detalhes em branco e minha porta seria a porta vermelha do oitavo andar: identificação de minha natureza excêntrica, de meu gosto exorbitante por cores, minha condição de artista e meu isolamento. certamente o pessoal do prédio num vai achar muito bom… por que se eu tive que brigar pra manter minha cortina laranja como vou explicar que minha porta será vermelha como resposta sarcástica à madame que quer que eu não tenha nem acesso à remédios, nem à comida?!

eu vou é substituir as listas de ações por listas de não-ação: – não me envolverei em brigas no grupo do condomínio (portanto nem debaterei sobre a cor da porta); toda a vez que um pensamento ruim vier vou deixá-lo seguir sem nenhum movimento da mente (fingir demência se necessário); se alguém vier me trazer uma fala que não contribui favoravelmente com ninguém eu ficarei em silêncio; só produzirei o que achar relevante… do contrário a artista não trabalha atrás da porta vermelha.

verifiquei a falta total de alimentos vivos no recinto e apesar de o dia estar lindo pra quem não está morrendo sem ar (eu no caso… ainda), sair e atropelar as partículas atrás de alimento agora é risco de vida. usar com essa frequência o cartão de crédito pode ser também. digitei “jejum saudável” no buscador e uma ripa grande de oportunidades de emagrecer 7 quilos em 7 dias apareceu. já me dei por satisfeita só de tentar encontrar uma forma de olhar a escassez com suavidade.

humor mórbido como o ar respirável e minha porta de vermelho pra sinalizar que estou artista

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