fotofobia crônica – 12/08/2020

eu precisava despertar. havia marcado uma consulta com um oftalmo às 9h. o quarto está escuro, é assim que tem sido. o sol aqui é um intruso. nos últimos dias desenvolvi uma aversão à luz. a pele queima, os olhos ardem, eu reajo com medo ao que vem de fora. converso com algumas amigas, quem sabe não está aí a realização de um sonho. é, eu sei que parece bobo, mas tudo indica que estou me transformando em uma vampira. se verdade, já tenho uma lista de espera das próximas que vão receber de mim o dom das trevas. todo esse episódio me leva de volta à infância e parte da adolescência. Drácula, de Bram Stoker, foi a primeira obra que eu comprei com o meu dinheiro, ganho em um concurso de literatura realizado pela biblioteca de um colégio de padres. colégio de padres, o que pode parecer uma redundância no Brasil. o concurso consistia em escrever, no mínimo, 10 resenhas sobre os livros indicados para a minha faixa etária (da 5ª a 8ª série). eu fiz de todos, só por garantia. no dia da premiação, não acreditei quando chamaram meu nome. fiquei parada, olhando para o diretor da instituição que me mirava de volta. então, enfiei as mãos no bolso, sinal típico de desconforto e caminhei rumo ao palco em frente a todos os cerca de mil alunos da escola. na época eu ainda não usava óculos, e, por isso, multidões não me causavam tanto nervosismo. eu não podia ver os rostos que me observavam. eram todos sombras, semblantes, fantasmas. minhas mãos seguravam o forro dos bolsos e empurravam o casaco de moletom para baixo. não queria estar ali, não gostava de chamar a atenção, achava que isso era incômodo e não conseguia enxergar o ato como uma celebração. estava naquela idade da vergonha do carinho materno em público e do afeto digital nos emoticons trocados pelo MSN. não sei se preciso dizer, mas é pandemia e sinto falta do abraço, do toque, do leva um casaquinho. é isso, é o óbvio. mas talvez eu precise dizer o óbvio pois eu não aprendi. tenho 27 anos e sei que ainda não sei tanto da vida. mas nessa época, ah, como eu achava que sabia alguma coisa. e lá estava eu sendo fotografada para o jornal do colégio, segurando o envelope do vencedor como se aquilo fosse vergonhoso, escondendo-o da câmera. até hoje ao ganhar um presente eu refaço o ato de escondê-lo. gosto de presenciar o presente. gosto de estar sozinha, em silêncio, de ouvir o barulho do papel rasgando aos poucos e da mesma forma como faço isso, também gosto do observar o olhar da pessoa ao descobrir o conteúdo do presente que escolhi com tanto carinho. lembro que não sorri na foto. depois, ao vê-la publicada ao lado dos outros dois ganhadores, percebi que eu destoava deles. era o retrato de uma criança triste, sombria, de testa tesa e ombros encolhidos. sabe, eu gosto dessa foto. eu lembro de ser um ótimo momento, de estar me sentindo bem, só não me via na obrigação de compartilhar aquilo com tanta gente. aquele momento era meu. no próximo fim de semana eu pedi para minha mãe me levar no meu local favorito: a livraria Saraiva do shopping Praia de Belas. era ótimo para nós duas. ela me largava na seção infantil e ia organizar as compras do supermercado, calcular as promoções com calma, fazer render seu suado salário. amada, quando podia sempre me trazia uma lembrancinha. e eu passava horas ali, lendo de graça. tanto tempo que eu escolhia o livro que ia ler pelo local que ele ocupava na prateleira. ia lendo um ao lado do outro. lembro que um funcionário voltava de duas em duas horas para trocar a fita do filme que passava em uma pequena televisão. todas aquelas crianças quietinhas, vendo pela décima vez o mesmo filme. eu não conversava com elas, mas sabia seus nomes pois ouvia elas sendo chamadas pelas mães, na hora de ir embora. apesar de tudo, aquele era o local mais silencioso que eu conhecia, pois nem se ouvia os pequenos, nem o filme. o ambiente era confortável, e eu sabia que o adulto chegava 1 minuto antes do fim do filme, o que davam 119 minutos de leitura ininterrupta. eu contava tudo. a quantidade de passos dados para chegar da casa até a padaria, o número de rachaduras na rua, os pombos, os chicletes pisados e quantos deles possuíam a forma de um carro amassado. muitos, por sinal. estranho é que eu nunca tenha pensado em virar escritora. é verdade, nunca escolhi e nem sei dizer muito bem como cheguei aqui. mas agora ocupo esse lugar e conto que eu sabia onde ficava o local das melhores obras. existia um exemplar que eu escondia dos outros. fazia dois anos que ele estava em um canto separado, no vão entre as prateleiras. pelo acúmulo do pó, eu imaginava que me ajudaria a tirar o interesse de um possível comprador. então, em um sábado, eu pedi para que a minha mãe me esperasse na entrada do estabelecimento pois eu precisava de algo. subi ao esconderijo, peguei a obra de capa já amarelada de Bram Stoker, uma edição Série Ouro da Martin Claret. eu finalmente poderia abrir aquele livro, que era meu, comprado com o meu dinheiro, na minha casa e descobrir o que era a tal de história que inspirou tantas outras. até então eu só tinha lido sobre o Drácula em fóruns da internet e pesquisas esparsas pelo Google. a minha curiosidade pela verdadeira história vinha sendo alimentada por dois anos e agora ela era minha. o Drácula me pertencia. decidida, voltei e levei minha mãe até o caixa. entreguei para o atendente o livro e o cheque. minha mãe perguntou quanto daria, e ele nos respondeu que eu ainda poderia pegar mais coisas. inquieta, peguei o primeiro livro que estava na minha frente e levei até o caixa. ele disse que poderia levar mais algo pequeno, então, irritada, peguei um item que estava na bancada e adicionei ao pedido. satisfeita, me agarrei a sacola e permaneci assim até chegar em casa e finalmente poder abrir aquele livro, mas, me deparei com outra coisa. ao enfiar a mão na sacola e puxar o objeto, me vi diante da obra Histórias Extraordinárias, na capa, a imagem do meu gato, o mimoso. eu tinha a certeza que aquela era a imagem do meu gato. acima, um nome: Edgar Allan Poe. abaixo, outro: Clarice Lispector. estava eu diante de escritores e obras que guiaram a minha vida por anos. e, mal sabia, que eu estava diante de algo que estava me tirando a habilidade de ler. as crianças têm medo do escuro, adultos têm medo da luz. eu, escritora, gamer, aficionada por navegar pela internet jamais me imaginei exausta das telas. mas aos poucos, eu comecei a não enxergar quase nada. meus olhos denunciavam a claridade, eu tinha que ficar horas em completo escuro. no décimo dia eu resolvi marcar uma consulta de urgência. luzes penetram meu olhos, exames são feitos, eu penso na possibilidade de nunca mais enxergar. o resultado final: alergia. andei acumulando muitos livros, e com eles, muita poeira. assim, volto para casa às 10h e resolvo voltar a mexer nos livros, pegar um por um e limpar página por página, quem sabe abrir Drácula novamente e aproveitar mais um momento com ele.


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