Cresci ouvindo histórias. A vó sentada na máquina de costura narrava o dia. Nunca esquecia de contar o número de pares de meias que tinha estendido no varal. Durante os passeios pelo jardim explicava o nome das plantas e arrancava as ervas daninhas que insistiam em crescer entre elas. Teve um dia que despedaçou uma flor e foi comendo, pétala por pétala. ‘Sim, é possível comer flor’, ela dizia. Naquela vez eu acreditei, uma avó que tem o nome de Rosa devia saber muito bem o que estava fazendo. A mãe, também, se inspirava um pouco antes de dormir. Suas histórias narravam as aventuras dos irmãos Tico e Teco, dois esquilos que viviam grandes confusões quando saíam para brincar pelo bairro. Depois da história a gente rezava: ‘santo anjo, meu bom amiguinho, me leva sempre para o bom caminho, amém!’.

Contar histórias é servir de trem, ouvi-las é compartilhar da viagem do outro. Hoje eu lembro das histórias que eu vivi. Da mamadeira no sofá da sala, da brincadeira de bicicleta que mano e eu fazíamos com as solas dos pés. E as lembranças vem em forma de pacotes. Como pausas, vácuos existenciais. No meio de um tempo infinito eu escuto o silêncio. Pensar que sou coadjuvante, na verdade, é fuga, válvula de escape. Assim como as gotas que escapam das cinzas nuvens e que, em queda livre, são belas, ainda mais quando observadas. É a vida que acontece adiante, dentro. E os laços invisíveis submergem, ousados, para aqueles que estão dispostos a ver. O entrelaçar das mãos que se costuram entre parênteses e que eu finjo saber a dimensão do complexo. A vontade de eternizar os momentos instiga e quem determina a matéria final é o senhor do tempo.

Entretanto, hoje as imagens que se formam nem parecem fazer parte de um mesmo mundo. Está tudo desconexo. O surreal passou a fazer parte dos nossos dias, e estamos nos acostumando com o medo. Vejo as palavras esvaindo-se. A dificuldade em escutar o barulho das nossas mentes nos faz gritar alto. Depois de tanto tempo mirando o exterior, fomos obrigados a focar mais para dentro. Não quero falar o que vai ser quando isso tudo acabar. Também acredito que não convém pensar em como tudo era antes. Estamos, cara a cara, com a impermanência da vida, das coisas. Mais uma vez somos chacoalhados para enxergar que somente existe o agora e, com ele, uma enxurrada de tantas coisas que quase nunca paramos para olhar. O que é a presença? Do que eu mais sinto falta? Onde mesmo é que o sol entra na minha casa? De que forma o vento faz curvas e assovia através das janelas?

Visito momentos e faço de conta que é bom estar de volta aos velhos tempos. Mas não como era antes. Nas lembranças que se avivam quando escuto a canção que me lembra do primeiro beijo. A língua, o gosto do outro, e eu revivo um pedaço do passado navegando na bolha de uma memória. O sabor se confunde com o amargo do café, parte do ritual que eu insisto em acreditar ser indício de um dia bom. O fingimento está em tentar trazer para o concreto da mente. O belo se oculta no que não se acessa, assim, facilmente, está na camada sutil, no inconsciente. O problema de tudo é que não nos livramos das antíteses, a vida só existe porque existe a morte, tudo ou nada. O conjunto do espaço vazio, a dúvida. Na sombra, nesse meio termo entre a luz e a escuridão, o sentido subjetivo afaga um vazio interno. Porém, como experimentamos o velho em um lugar novo, eternamente procuramos o nexo. Há razão em ver relações entre as coisas, pois aí o senso de angústia se acalma.

eu não desisto de procurar o que é belo
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3 ideias sobre “eu não desisto de procurar o que é belo

  • 18 de junho de 2020 em 14:17
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    Muito linda mensagem que bela lembrança. Beijos.

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    • 15 de julho de 2020 em 14:20
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      Obrigada pela leitura.
      Super Daviii!

      Resposta

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