Acontece que antes dessa foto teve uma professora acordando cedo pra responder a todas as dúvidas e angústias dos estudantes no Teams. Mas bem rapidinho porque os guris estavam olhando desenho e eu não queria deixá-los zumbificados na tevê.

Antes do roupão, teve a pilha de roupas pra lavar enquanto se pensa no cardápio do almoço. “Mãe, quero ver Galinha Pintadinha”, “não, mãe, Antônio quer ver Ninja”, “não, quero esse”. E pau quebrando enquanto o feijão queima no fogão.

Antes da skincare, teve a luta pra fazer duas criaturinhas comerem direito. E vem no colo pra comer, mas corre atrás do outro que sobe e pula no sofá. Brinquedo pra tudo quanto é lado, pilha de louça, ihhh esqueceu a roupa na máquina… Mas seria tão legal se a gente fizesse uma receitinha juntos, né? Isolamento é momento pra se aproximar da família, eles disseram.
“SORA, PELO AMOR DE DEUS, ME DÁ UM PRAZO EXTRA PRA ENTREGA DO TRABALHO”, respondo que sim enquanto coloco os cookies no forno e espero o mamá ficar pronto.

Enquanto o cookie assa, coloca os dois no banheiro pro banho, afinal depois de toda bagunça, um banho e mamá resulta em uma sonequinha. E canta o sapo não lava o pé, e galinha pintadinha, e a borboletinha que tá na cozinha e… o cookie! Quase queima. Coloca as cria berço, pega o cookie, estende a roupa e… dormiram.

Hora da professora atualizar o sistema de aulas. Afinal, no isolamento é preciso ser solidário com a condição dos estudantes durante uma pandemia. Atividades atrativas, engajamento digital, vídeo, música… “Mãe!!!!” Brinca de carrinho, espalha brinquedo, canta, dança, toma café, come o cookie, desenha, choro, correria, grito. Vida.


A noite chega e é hora de treinar, afinal é preciso manter a forma durante o isolamente, né não? Inicia o exercício, no intervalo das séries desenha as letras pro Antônio e pro Caetano, “por favoi”. Abdominal e a de abaxi, b de bola, agachamento, c de café, corrida. Recolhe o tapete do abdominal, guarda as garrafas de leite que substituem o supino, convence as crianças de que arroz e feijão é melhor que desenhar todas as cores no papel. Como trocar o arco-íris pelo preto-branco? A mãe consegue, ah, se consegue.

Parecia uma luta contra os bárbaros aquele jantar. Mas comeu-se, não o ideal, mas o suficiente para duas crianças no auge dos dois anos. Sabe que comida dá energia? Quando crescemos, esquecemos isso, mas os filhos vêm pra lembrar. Tal qual um brinquedo esperando a pilha, a comida faz o efeito necessário para se instaurar o caos estético em uma casa. Brinquedo, grito, jornal nacional, “escuta, filho”, “MÃE, EU SOU UM NINJA”, correria, a taça de vinho esquecida na mesa, presidente falou isso, “isso o quê? escuta, filho”, “SOU NINJA GONDE”, presidente não usa máscara, “O CAETANO ME BATEU”, a economia precisa seguir, “EU QUERO ESSE CARRINHO”, a novela começa. Correria pra guardar tudo, quero paz, preciso de mim. “QUERO MAMAR, MAMÃE”. Mamou, deitou e dormiu. Amém.

Onde eu fiquei? Dentro da caixa de brinquedos? Não… Me procuro na pilha de louças, nada. Ah, a taça. Pego-a na mesa. Finalmente, sós. Até que enfim, eu.

Então, essa sou eu de roupão, sentada no sofá, com a skincare em dia e tomando um bom vinho tinto. Na maior plenitude. É… quem vê close, não vê corre.

Diário materno de isolamento
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