Recife, 23 de março de 2020 – sexto dia de isolamento. 

Querido diário peregrino,

Escrevo para dizer que vamos parar por um bom tempo. Você vai agora presenciar apenas o movimento diário de alguém, que em estado de isolamento involuntário, permanece em casa e acompanhará ainda o esforço diário dela tentar permanecer tranquila em tempos de calamidade pública.

Confesso que foi com certa alegria que retornei para casa na terça feira passada, no horário do almoço, ao ser dispensada do trabalho por conta de idade. Cheguei a me regozijar por ter mais de sessenta!!!! Acrescentei mais essa vantagem de ter sessenta ou mais na minha pequeníssima lista do contente que criei na mente para poder curtir essa nova idade que me chegou mais depressa que queria. 

Cá entre nós, querido diário, até pensei que como a pouco tinha escrito de que precisava de mais tempo para criar…e verifiquei que esse desejo chegou repentinamente, mais rápido do que imaginei!  Pensei: que oportunidade! Claro que era melhor não ter esse tempo dessa forma e que torço que tudo termine logo…. Mas, a primeira sensação foi de leveza e felicidade! Home sweet home. E como dizem os orientais onde há crise, há oportunidade!

Há algum tempo estou sem férias e mesmo cortando algumas atividades, elas vinham surgindo tão sedutoras que não resistia a muitas. O que estava acontecendo comigo, era ficar assoberbada e daí as saudades do meu lar, que mal estava parando para desfrutá-lo e ainda em excelente companhia! Uma filha adulta e um cãozinho amoroso.

Sou otimista por excelência ou talvez seja um pouco autista, que não me concentre nesse mundo de noticiário. Ou talvez ainda, seja uma forma de proteção perante a essa realidade tão cruel. Então iniciei com tudo gás meu isolamento.  Uma dieta de poucas notícias e muitos afazeres. Já fiz muita coisa. Fiz quase tudo do que me prometia lá no meio dos meus compromissos diários, quando pensava: “quando eu tiver um tempo, vou ler aquele livro. Vou interagir mais com as pessoas no mundo virtual. Vou fazer exercícios. Vou estudar inglês… vou assistir aqueles documentários, vou cozinhar (rsrsrs), vou organizar minhas gavetas…vou desenhar, vou pintar…”  mas bordar….nem pensar!!! Fico devendo esta habilidade. 

 Acho que exagerei nessa sede de fazer que até machucar minha lombar já me aconteceu! Passei um dia dentro do quarto e ao sair da cama no dia seguinte, fiquei mais feliz! Agora o espaço ficou muito maior do que eu estava limitada. Do isolamento do quarto, passei a ter a casa toda!  Parece que vivi séculos, de tanto fiz e me prometi fazer, querido diário, que tenho a impressão, que deva experimentar um dia do nada, absolutamente nada. Talvez esse seja meu grande desafio! Quem sabe amanhã?

Hoje particularmente me aconteceu algo que considerei meio estranho. Abri a porta um momento  porque tive de receber uma encomenda que o zelador trazia e achei tão esquisito ele com medo de mim e eu dele. Ele usava uma máscara e deixou a encomenda no chão e eu deixei também, num prato descartável um bom pedaço de bolo de chocolate que tinha feito ontem e que ofereci para eles (o zelador e porteiro). Um sentimento de tristeza me tomou naquele momento. O estranhamento do outro… Quanto tempo levaremos nesta distância? Lá dentro ouço a tristeza na música: “Doce amargura” cantada, há milhões de séculos atrás, por Moacyr Franco: vai à distância que nos separar…

Helena (minha filha) diz que esse isolamento até está parecendo quase um episódio de “walking dead”, quando olhamos para as ruas vazias daqui do apartamento, Deus nos livre!

Como disse querido diário, ainda não parei meu entusiasmo de fazer coisas, ou estou ainda no mesmo ritmo de que estou acostumada. O que farei sobre essa constatação, ainda não sei, pois no momento, o certo é que abri o computador e percebo que tenho dever para fazer do meu curso online. Por isso abri o computador e comecei a digitar rapidamente a minha tarefa com este pensamento: ”Vou fazer logo, para ver se amanhã faço nada” … Antes que chegue o trabalho remoto que a minha empresa estará disponibilizando e novamente ocupará meus dias quase da mesma forma…

Aquele abraço!

Bernadete Bruto.

Diário do Isolamento

Uma ideia sobre “Diário do Isolamento

  • 28 de junho de 2020 em 06:37
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    Bernadete,
    É muito bom conhecer um pouco do que você tem vivido nesses tempos loucos de pandemia.
    Obrigada por compartilhar.
    Espero que você tenha tempo para criar mais rsrsrs
    Bjs
    Valéria

    Resposta

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