A tela não substitui o toque, repito com meus botões. Ontem me dei conta de que passarei um ano inteiro tendo contato real apenas com meu pai e minha mãe. Em dezembro precisei entregar meu apartamento e, depois de dezesseis anos morando sozinha, voltei para casa. Era para ser temporário, acho que ainda é para ser temporário, uns três meses até concluir a escrita de minha tese de doutorado, defender e encontrar um novo canto para morar. Um canto que poderia ser Porto Alegre, Maputo, França, Portugal, ou qualquer outro lugar que as fronteiras permitissem. O mundo fechou nesse meio tempo, defendi minha tese da sala de casa, na presença dos meus pais, minha cachorra e um monte de quadradinhos numa tela. Em torno de uns cinquenta quadradinhos para ser mais específica, sem ser exata. Acho que foi a primeira vez que recebi tanta gente na minha casa, gente que eu amo, gente que eu admiro, gente que eu nem acreditava que estava ali para ver meu trabalho. Chorei. Metade da plateia chorou. Até quem estava na banca estava quase a chorar. Era início de uma quarentena que já ultrapassou, e muito, os quarenta dias, sem nunca ter sido quarenta, acho que estávamos todos precisando comprovar que o contato humano persistiria apesar da clausura.


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De maneira geral, eu sempre preferi uma tela ao som de uma chamada convencional. Não sei, falar no telefone me deixa sem graça. Conversar por vídeo chamada me é mais natural. É, não faz sentido. Ou não fazia até eu começar a analisar, de uma maneira um pouco compulsiva, a forma como me comunico – como nos comunicamos. Um ato de linguagem não é apenas um ato da fala, é um ato do corpo. Há comunicação nas minhas linhas de expressão, nos movimentos que faço com as mãos, os ombros e a cabeça. A tela cumpre essa função de simulacro da expressão física. De fato, aproxima. Querendo ou não a pessoa com quem me comunico no outro lado da tela fica a três palmos de distância da ponta do meu nariz.  É bem mais próximo do que se costuma ficar numa reunião de trabalho.


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O fato é que venho navegando, como muitos, por telas e conferências desde que isso tudo começou. Eu não reclamo, gosto da possibilidade, gosto de assistir um filme com resolução questionável só para poder ver o rosto das minhas amigas ocupando um quinto da imagem da película. Gosto de receber ligações em vídeo de Moçambique às 5h da manhã mesmo que eu só as veja ao meio dia porque já faz meses que troquei o dia pela noite. Gosto dessa lógica estranha que se estabeleceu e que faz com que eu me veja tendo mais contato com pessoas que antes nem eram tão próximas assim. Tenho conhecido tanta gente que eu já conhecia e isso tem sido bom. Gosto do jeito como a falta de opções faz com que eu olhe para coisas que antes eu ignorava e me desafia a encontrar novas soluções. Não gosto em absoluto de tudo o que está acontecendo lá fora. Mas gosto de como a minha incapacidade de lidar com aquilo que já não suporto mais têm despertado lugares em mim que me impulsionam para ação.


No todo, eu gosto das telas. Não só porque foram as telas o que me restaram como possibilidade, mas porque são possibilidade. De encontro, de afeto, de manutenção daquilo tudo que construímos e, quem sabe, de novas construções. Mas há um problema com as telas. Elas não substituem o toque. Em uma vídeo chamada sempre chega aquele momento de saturação. Aquele momento entre amigos em que o silêncio é confortável. Aquela hora da conversa que o abraço substitui as palavras, que o conforto vem do toque, do cheiro, da presença concreta. Aquele momento em um encontro em que a única possibilidade é o beijo. Nessas horas é como se a tela se saturasse, a maneira exata das soluções químicas, retendo todo o anseio por toque que não consegue ultrapassar as ondas digitais. A própria imagem refletida na tela se torna densa porque a falta é palpável.

E, nessa hora, o que resta é desligar.

A insuficiência da tela
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3 ideias sobre “A insuficiência da tela

  • 25 de junho de 2020 em 15:15
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    A quarentena nos proporcionou isso. A nossa pequena de volta em casa.
    Uma doutora que anda descalça, que anda à cavalo, dirige o trator e escreve muito bem.

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  • 25 de junho de 2020 em 17:18
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    Sempre profunda nas palavras! Muito bom poder refletir sobre o afeto, a proximidade e, ao mesmo tempo, a insuficiência das telas. ao mesmo tempo um alento e uma lembrança constante do isolamento. Tua sensibilidade me ajuda a respirar!

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  • 25 de junho de 2020 em 19:33
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    Parabéns, por ter feito da quarentena ” Momentos Familiares, Vivências Inesquecíveis para Sabia e Brilhante Escritora!
    Amei! Sucesso!

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